Hipertensão Arterial

A hipertensão arterial (HA), conhecida popularmente como pressão alta, é uma doença crônica caracterizada por elevação persistente da pressão arterial sistólica de 140 mmHg ou mais e/ou da diastólica de 90 mmHg ou mais, medida com a técnica correta, em pelo menos duas ocasiões diferentes e sem uso prévio de medicação anti-hipertensiva. Em boa parte dos casos, essa elevação da pressão arterial precisará ser confirmada com um método que avalia a pressão arterial fora do consultório, como a monitorização ambultorial da pressão arterial (MAPA).

A HA é uma condição multifatorial, influenciada por fatores genéticos, ambientais e psicossociais. Em termos simples: a pressão alta acontece quando o sangue circula pelos vasos com força acima do ideal de forma contínua. Isso sobrecarrega o organismo e aumenta o risco de doenças graves ao longo do tempo.

Qual a prevalência da hipertensão arterial? 

A HA é muito frequente no Brasil. A análise dos dados do Vigitel 2023 apontaram uma prevalência de 27,9%. Quando se usam estudos populacionais que incluem a medida direta da pressão arterial, a prevalência média encontrada no país fica em torno de 36%. A HA torna-se mais comum com o avanço da idade, afetando a maioria dos idosos. 

Quais são as consequências da hipertensão arterial para o nosso organismo?

A HA pode lesar progressivamente diferentes órgãos. A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) destaca o risco de lesão de órgão-alvo e de doença cardiovascular estabelecida, incluindo problemas no coração, cérebro, rins e vasos sanguíneos. Na prática, isso significa que a hipertensão aumenta o risco de:

  • Acidente vascular cerebral (AVC).
  • Infarto do miocárdio (IM).
  • insuficiência cardíaca.
  • Doença renal crônica.
  • Retinopatia hipertensiva e outros danos vasculares.

O grande problema é que muitas pessoas convivem com pressão alta sem perceber. Por isso, ela é frequentemente chamada de "matadora silenciosa”. O dano pode avançar por anos antes de aparecerem sintomas ou complicações.

Qual o nível ideal da pressão arterial?

Pela classificação da SBC para adultos, considera-se:

  • Pressão normal: abaixo de 120/80 mmHg.
  • Pré-hipertensão: entre 120-139 e/ou 80-89 mmHg.
  • Hipertensão estágio 1: 140-159 e/ou 90-99 mmHg.
  • Estágio 2: 160-179 e/ou 100-109 mmHg.
  • Estágio 3: 180 e/ou 110 mmHg ou mais.

Para fins de prevenção, o nível ideal é manter a pressão arterial na faixa normal, ou seja, abaixo de 120/80 mmHg. Na faixa de pré-hipertensão já existe um risco maior, sendo fundamental melhorar os hábitos de vida. Alguns pacientes de alto risco nessa categoria de pressão arterial já podem necessitar de medicação anti-hipertensiva. 

Em para pessoas com diagnóstico de HA,  a meta de pressão abaixo de 130/80 mmHg. Exceções seriam os idosos frágeis ou aqueles pacientes que apresentam episódios de hipotensão arterial, ou seja, quedas da pressão arterial na posição de pé. 

Como medir corretamente a pressão arterial em casa?

A medida da pressão arterial em casa, chamada de automedida da pressão arterial, pode ajudar muito no acompanhamento. A medida deve ser feita com técnica correta e, de preferência, com aparelho automático de braço. Para medir da forma mais correta possível em casa:

  1. Escolha um aparelho automático de braço validado pelo INMETRO. Pacientes obesos ou magros precisam comprar manguitos (bolsa de borracha acoplada no braço) de tamanho maior (adulto largo) ou menor (adulto fino), respectivamente.
  2. Descanse antes da medida. Fique sentado e em repouso por alguns minutos antes de aferir. Evite comer, tomar bebida alcoólica ou ingerir café uma hora antes.
  3. Sente-se corretamente. Mantenha as costas apoiadas, pés no chão, pernas descruzadas e o braço apoiado na altura do coração. Esvazie a bexiga e não fale durante as medidas.
  4. Faça 3 medidas, com intervalo de 1 minuto entre elas.
    Esse cuidado ajuda a reduzir oscilações e melhora a confiabilidade do resultado. Despreze a primeira medida, e faça uma média da segunda e terceira medidas. As medidas podem ser feitas pela manhã ao acordar (antes de tomar o remédio para aqueles que tomam) e à noite, uma hora após o jantar. Faça esse processo em dias "habituais". Evite fazer nos dias que você está mais ansioso, como dor ou quando dormil mal, pois essas medidas serão pouco representativas do comportamento habitual da pressão arterial. Faça esse processo uma ou duas vezes por semana.
  5. Anote os valores. Registrar dia, horário e resultado ajuda o médico a avaliar melhor o controle da pressão. A diretriz também recomenda o uso de monitorização ambulatorial da pressão arterial (MRPA) e monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) para confirmar diagnóstico e monitorar tratamento.

Importante: a medida em casa ajuda bastante, mas não substitui a avaliação profissional. Em caso de dúvidas, o ideal é levar o aparelho e os registros para conferência com seu o médico

Quais hábitos de vida ajudam a reduzir a pressão arterial?

O tratamento não medicamentoso, ou seja, a mudança dos hábitos de vida, é um dos pilares do tratamento da HA. Entre as medidas úteis estão:

  • Reduzir o consumo de sal (dieta hipossódica).
  • Adotar um padrão alimentar saudável, preferencialmente adotando a dieta DASH.
  • Controlar o peso.
  • praticar atividade física;
  • Reduzir ou preferncialmente evitar o álcool.
  • Não fumar. 

Dieta hipossódica: por que ela é tão importante?

A dieta hipossódica é aquela com redução do consumo de sódio. O excesso de sódio favorece retenção de líquido e aumento da pressão arterial. Por isso, diminuir sua ingestão é uma das estratégias mais importantes para quem tem pressão alta. Na prática, dieta hipossódica significa:

  • Usar menos sal no preparo dos alimentos.
  • Evitar colocar saleiro à mesa.
  • Reduzir produtos industrializados e ultraprocessados.
  • Ter cuidado com temperos prontos, caldos em cubo, embutidos, envidrados, enlatados, macarrão instantâneo, salgadinhos e refeições prontas.
  • Preferir alimentos in natura ou minimamente processados.

Atenção: muitas vezes a maior parte do sal não vem do saleiro, mas dos alimentos industrializados. Então, “comer menos sal” não é só temperar menos; é também escolher melhor o que vai ao prato. Essa mudança ajuda a baixar a pressão e potencializa o efeito do tratamento.

A dieta DASH

Dieta DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension) é recomendada como um padrão alimentar saudável, rico em potássio, cálcio, magnésio e fibras, que ajudam a reduzir a pressão arterial. Esse modelo alimentar enfatiza o consumo de:

  • Frutas.
  • Hortaliças e verduras.
  • Laticínios com baixo teor de gordura.
  • Cereais integrais.
  • Carnes magras.
  • Oleaginosas.

Ao mesmo tempo, a dieta DASH restringe:

  • Gorduras saturadas.
  • Carnes gordurosas.
  • Grãos refinados.
  • Adição de açúcar ou alimentos açucarados.

Como já mencionado, esse padrão alimentar é rico em potássio, cálcio, magnésio e fibras, e com menores quantidades de sódio, colesterol, gordura total e gordura saturada. Ela reduz, em média, a pressão arterial em 8,7 mmHg na sistólica e 4,5 mmHg na diastólica em pacientes com HA. A combinação da dieta DASH com restrição adicional de sódio produz redução ainda maior.

A importância do uso correto e regular dos medicamentos anti-hipertensivos

A adesão e persistência no uso de medicamentos anti-hipertensivos são pontos críticos no controle da HA. Tomar o medicamento corretamente significa:

  • Usar na dose prescrita.
  • No horário orientado e diariamente, sem interromper por conta própria quando a pressão arterial melhora.
  • Sem “pular” doses porque está se sentindo bem.

Isso é essencial porque a HA costuma não causar sintomas. Muita gente abandona o tratamento justamente por “não sentir nada”. O problema é que a pressão arterial pode continuar alta em silêncio, aumentando o risco de internações, complicações e morte. 

Dados da OMS indicam que cerca de 50% dos pacientes com doenças crônicas não usam os medicamentos como prescritos, o que eleva hospitalizações e mortalidade. Entre pacientes com doenças cardiovasculares, a baixa adesão pode atingir 40% a 60%. Outro ponto importante: esquemas com muitos comprimidos tendem a dificultar a adesão. Por isso, a diretriz destaca que combinações fixas e menor número de comprimidos por dia podem ajudar a melhorar o uso regular dos anti-hipertensivos. Em resumo, o remédio anti-hipertensivo não deve ser visto como algo “para tomar só quando a pressão sobe”. Ele é um tratamento contínuo para manter a pressão controlada e proteger órgãos vitais ao longo do tempo.

Conclusão

A HA é uma doença comum, muitas vezes silenciosa e potencialmente perigosa. Quando não é controlada, pode comprometer coração, cérebro, rins, vasos e visão. A boa notícia é que ela pode ser controlada com diagnóstico correto, acompanhamento, mudanças no estilo de vida e uso regular dos medicamentos.

Fonte: Diretriz de Hipertensão Arterial - Sociedade Brasileira de Cardiologia - 2025.

Autor: Dr. Tufi Dippe Jr. - Cardiologista - CRM PR 13700.